Enredo do meu Samba

Grupo Especial

Mangueira

"Minha pátria é minha língua. Mangueira meu grande amor, meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor"

Por Isaac Ismar

Mais uma vez, o carnaval da Mangueira segue o caminho que tem lhe garantido boas colocações e a manutenção de um estilo que todo mangueirense gosta de ostentar, que é a tradição de enredos clássicos. E nada mais tradicional que um tema sobre a língua portuguesa. Grandiosa, com muito verde e rosa, um samba rico em melodia e letra, cheia de vontade de contar história e esbanjar cultura na Marquês de Sapucaí. Essa é a Estação Primeira e seu enredo "Minha pátria é minha língua. Mangueira meu grande amor, meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor".

Para o carnavalesco Max Lopes, seu desfile deste ano tem como objetivo enaltecer a literatura portuguesa e seus autores, além de incentivar as novas gerações a apreciarem os clássicos e os lançamentos do nosso idioma. Segundo o artista, o importante é ler, ainda que a leitura não seja de obras consagradas.

- O enredo da Mangueira é puramente cultural, que incita os jovens à leitura, porque cada vez se lê e escreve menos. Eu acho que é um tema que vale a pena para a nossa língua, que está sendo esquecida. Esse é o nosso grande trunfo. Acho que o que vale é ler. A juventude não lê mais, poucos se interessam pelos jornais, então, não sabem ler e escrever bem. Ficam no "É nós, é nós" e acabou. Não tem mais vocabulário. Poucas pessoas sabem conversar - lamenta Max.

E para citar exemplos de como a língua portuguesa ganhou várias influências desde a chegada dos primeiros lusitanos ao Brasil, a verde-e-rosa relembra em seu desfile momentos que foram cruciais para as transformações do idioma que é falado atualmente em todo o país. A Semana de Arte Moderna e o movimento Tropicalista terão destaques em setor e carro alegórico, como revela o carnavalesco:

- A gente conta as fases de mudança da lingüística porque aconteceram muitas influências, não só dos índios como dos africanos, que criaram um novo linguajar. A partir daí, o povo falava uma coisa e Machado de Assis escrevia outra, um português totalmente clássico. E as pessoas foram criando um linguajar mais popular. Com a vinda dos africanos, isso foi acentuado. E a nossa maneira de falar português ficou diferenciada. Em várias regiões do país o português tem uma diferença muito grande. Outras influências também contribuíram para a formação do idioma. A Semana de Arte Moderna fez com que houvesse uma mudança muito grande na literatura, dando mais dinamismo e modernidade. A Tropicália ajudou ainda mais por ter sido um movimento musical, com Jorge Amado e sua literatura mais povão, que todo mundo gosta e entende. Agora nós estamos entrando na fase da literatura mística de Paulo Coelho.

Plasticamente, a Mangueira também mantém a opção pelo gigantismo e o bom acabamento de suas alegorias. Tanto que Max dedica esses últimos dias antes do carnaval apenas para acertar os detalhes finais dos carros alegóricos com mais tranqüilidade.

Sobre o tamanho dessas alegorias, o artista não abre mão do impacto visual que normalmente impõe. Desta vez, ele prepara um abre-alas (com dois carros acoplados) de 75 metros de comprimento, além de 12 tripés e um septo à frente. No carro seguinte, também haverá dois chassis acoplados (que somam mais 70 metros de extensão) para relembrar o domínio dos portugueses nas grandes navegações.

Defensor de temas voltadas para a cultura e ricos em literatura, Max aposta na agremiação como uma das credenciadas ao título. Os motivos para a confiança são vários, como o samba, os bons ensaios técnicos, o clima positivo no barracão e a riqueza do enredo. O artista se mostrou atento as transformações que o espetáculo vem sofrendo nos últimos anos, e aproveitou para defender seu jeito de produzir carnaval.

- Cada escola tem a sua característica, a minha é mais de raiz, histórica, que tem os seus capítulos com começo, meio e fim. Não são assuntos que fui buscando para colocar ali. Normalmente, aquilo que eu me proponho a fazer tem uma história a ser contada. Me interessa que não apenas o jurado, mas o povo entenda o que está vendo e ouvindo. Aposto na escola num todo. Não é um carro, nem uma fantasia que vai ganhar o carnaval, mas sim a energia. A escola está muito feliz e certamente buscará o título - afirma ele, que terá a missão de apresentar o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira para o público e julgadores.

Confira agora como será o desfile da Mangueira com a descrição dos carros e setores:

Comissão-de-frente: Portugal é homenageado pelos 15 bailarinos comandados por Carlinhos de Jesus com uma performance baseada na frase "A palavra é para dizer" de Guimarães Rosa. Os integrantes do grupo vestirão roupas confeccionadas com aviamentos lusitanos. Em determinada parte do samba, eles farão uma reverência ao intérprete Jamelão;

Abre-alas: "Império Romano" – O Coliseu estará na abertura do desfile para representar o latim, língua que deu origem ao português; A alegoria será acoplada e terá comprimento de 75 metros, trazendo efeitos especiais. Doze bigas medievais e gladiadores darão ainda mais realidade ao momento da apresentação;

Primeiro setor: "A última flor do Lácio" – Nobres, gladiadores e soldados romanos;

Segundo carro: "Navegar foi preciso" – Uma enorme caravela de aproximadamente 70 metros de comprimento remeterá às grandes navegações portuguesas. Alegoria acoplada e com muito dourado;

Segundo setor: "Expansão lusitana" – As alas abordarão a viagem marítima dos portugueses para chegar ao Brasil, com direito aos piratas que encontravam pelo caminho;

Terceiro carro: "Corte de Caminha" - Uma grande carta de Pero Vaz de Caminha retratada ao meio a caveiras que remetem ao antropofagismo de algumas tribos indígenas;

Terceiro setor: "Terra brasilis" – As fantasias do setor relembram as tribos brasileiras, como os Tupis e Tupinambás;

Quarto carro: "Chegada africana" – Muitos antílopes nessa alegoria. As esculturas desse animais estão unidas em duplas e vão se movimentar como uma gangorra.

Quarto setor: "Influência negra" – Nesta fase do desfile, as roupas dos componentes serão em estilo afro para contar como a chegada dos negros contribuiu para algumas mudanças no idioma português falado no Brasil. Entre as alas, estarão as baianinhas, bateria e passistas;

Quinto carro: "Miscigenação colonial" – O estilo colonial predomina na arquitetura retratada nessa alegoria;

Quinto setor: "Brasil de todas as raças" – Mostra a mistura de culturas do país, como, por exemplo, a influência européia sobre os índios nativos;

Sexto carro: "Inspirações literárias" – Muitas cores e a reprodução da obra "Abaporu", de Tarsila do Amaral;

Sexto setor: "Modernização literária" – As fantasias "As aves da canção do exílio", "Os sertões" e "Vidas secas" citarão livros importantes da literatura nacional;

Ala das crianças: Representarão animais, como tartarugas, onças e araras;

Sétimo carro: "Tropicália" – Muitas frutas;

Sétimo setor: "Movimento tropicalista" – O momento de revolução cultural que movimentou o país será lembrado em alas como "Alegria, alegria" e "Cultura televisiva";

Oitavo carro: "Estação Primeira da Luz" – A última alegoria enaltecerá o nosso idioma lembrando o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo;

Oitavo setor: "Estação Primeira da Luz" – As últimas alas virão vestidas de personagens do carnaval, como pierrôs e colombinas de verde-e-rosa, e falam de canções como "Eu sei que vou te amar".

Baianas: "As rosas não falam" - As senhoras terão fantasias nas cores da escola, relembrando o maior sucesso de Cartola, ícone mangueirense.



Foto: Henrique Matos / Liesa