Enredo do meu Samba

Grupo Especial

Mocidade

"O futuro no pretérito – Uma história feita à mão"

Por Isaac Ismar

"Um Brasil feito à mão, um só coração...", como é cantado um dos refrãos do samba da Mocidade Independente, resume bem parte do enredo da verde-e-branca para o carnaval 2007: "O futuro no pretérito – Uma história feita à mão", de autoria do carnavalesco Alex de Souza. O tema é uma exaltação ao artesanato brasileiro, gerador de empregos e tão importante para cultura do nosso país. Com suas dimensões continentais, o Brasil reúne diferentes estilos de arte em cada região, o que rende à escola de Padre Miguel um rico e variado tema.

Mesmo com tanta diversidade no artesanato brasileiro, a Mocidade preferiu ir mais além, e buscou na ficção científica o diferencial para o seu desfile. Alex decidiu relembrar o futuro imaginado em 1927 no filme "Metrópolis", de Fritz Lang, no qual o planeta Terra no ano de 2026 foi pensado como um lugar mecânico, sem alma.

- A abertura do desfile mostra essa preocupação dos livros e filmes com o futuro. Reproduzimos uma cena de "Metrópolis" que retrata como os antigos imaginavam o estilo de vida que estaríamos tendo hoje ou em pouco tempo. O futuro imaginado no pretérito era de um mundo em que as máquinas dominam, tornando o homem seu refém – conta o carnavalesco.

A preocupação com a classe trabalhadora também será mostrada. Como já é característico no estilo de Alex, seus enredos sempre têm um quê de cunho social. Ainda no começo da apresentação da Mocidade, a primeira Revolução Industrial é relembrada como a responsável pela desagregação das famílias.

- Com a criação das maquinarias, o homem começou a sair de casa para trabalhar nas fábricas. Isso desagregava as famílias. Conforme as máquinas foram se tornando mais eficientes, menos homens eram necessários para o ofício. Depois chegamos a uma segunda Revolução Industrial em meados do século XIX, e aí desperta a atenção de alguns sociólogos e filósofos para o futuro da classe operária, uma vez que não havia direitos trabalhistas. Além disso, o maquinário se tornava cada vez mais auto-suficiente. Quando se fala em desemprego no Brasil, parte disso é por conta da determinada forma de produção que basta uma pessoa apertar três botões que a máquina faz tudo na fábrica – explica.

A partir daí, começa a viagem pelos quatro cantos do país. Cada rincão dessa imensa nação será citado pela verde-e-branca. Ciente que o artesanato verde-e-amarelo já foi exibido na Marquês de Sapucaí inúmeras vezes, o carnavalesco buscou inspiração nas características regionais, mistura de raças, biodiversidade e no potencial do ser humano.

- Para falar sobre a importância do artesanato brasileiro e pelo histórico da Mocidade, de escola futurista, quis fazer um confronto. Afinal, para valorizar uma coisa, teria que mostrar a outra. Se começasse e terminasse o enredo apenas sobre o artesãos, poderia ficar um desfile um tanto quanto monótono. Será um enredo em que o valor do trabalho desenvolvido em várias regiões do país, cada vez mais atuante, ganhará espaço. As oficinas e cooperativas são um exemplo disso, principalmente em uma época que se discute tanto a questão do emprego e a criação de frente de trabalho. A Mocidade está fazendo uma homenagem a quem promove isso e faz com que as pessoas tenham trabalho em suas tradições culturais. Mostrando que, em pleno século XXI, com tanta modernidade e tecnologia, temos um outro caminho: que é a volta para a natureza e as mãos dos artesãos brasileiros – afirma.

O encerramento traz uma homenagem aos artesãos do carnaval. São aquelas pessoas que ajudam a fazer a grande festa, trabalhando nas "fábricas de sonho": os barracões das escolas de samba. Nesta fase do desfile também haverá uma referência ao carnaval futurista, quando figuras tradicionais da folia voltam à Avenida em estilo robotizado.

- Brinco com o termo "Cidade do Samba" e ela passa a se tornar “Metrópolis do Samba”, onde cada fábrica produz, com seus artesãos, a festa. Eles estarão na Avenida para que sejam vistos e reconhecidos, porque geralmente todo mundo vê o trabalho, mas não quem faz. A idéia de pesadelo tecnológico estará presente também. No livro "Eu robô", Isaac Asmov (autor da obra) imaginava um futuro onde os robôs se tornariam meros objetos eletrodomésticos. Os robôs carnavalescos que encerram o desfile foram feitos pelas mãos dos artesãos daqueles que contribuem com o carnaval todo ano. É uma amarração do que é passado e o que é futuro. São visões do passado em relação ao futuro, e lições do passado de um futuro melhor – diz.

Confira como será o desfile da Mocidade, a quinta agremiação a desfilar no domingo de folia:



Comissão-de-frente: A coreógrafa Cláudia Ribeiro será a responsável pela apresentação dos bailarinos, que simbolizarão um pouco do futuro sombrio pensado no passado e o valor do ser humano em transformar a matéria-prima em obras artesanais, como uma espécie de artesanato divino.

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira: Marcelo Pessoa e Marcella Alves estarão fantasiados inspirados nos motivos do primeiro setor;

Abre-alas: Relembra a cena do filme "Metrópolis", na qual o filho do dono da cidade visita a Cidade dos Operários (abaixo da superfície) e lá conhece uma grande máquina que faz com que Metrópolis funcione. Mas, para isso, vários trabalhadores precisam manuseá-la 24 horas por dia, afinal, se alguém errar tudo pode ir por água abaixo, ou seja, o homem se torna escravo da máquina. O estilo será art'décor com o uso de materiais como latão, cobre e prata;

Primeiro setor: Também é inspirado em "Metrópolis". As cores prata, cobre e dourado predominam;

Segundo carro: Remete à pré-história do artesanato brasileiro da Região Norte do Brasil. A alegoria traz uma grande tigela tapajó simbolizando a arte de antes do Brasil ser descoberto;

Segundo setor: A característica do artesanato indígena será o destaque neste setor em homenagem ao Norte do país. Além da cultura tradicional dos índios, a cosmética e a perfumaria ganham destaque. A cerâmica marajoara, o patchuli e o capim-dourado (comum em Tocantins), também terão alas;

Terceiro carro: O barro e o trançado de linhas são os elementos desta alegoria, alusiva à Região Nordeste. Embora sejam da mesma cultura, são contrastantes;

Terceiro setor: As rendas, os trançados, as linhas, os bordados e os brinquedos (bonecas de pano, fantoches, marionetes), além do bumba-meu-boi serão representados em fantasias. A ala em homenagem aos orixás da cultura baiana terá um trabalho em metal. As redes de dormir tão comuns em Pernambuco, Ceará e na Paraíba surgem neste setor. O Maranhão é citado com a fibra do buriti – planta comum no estado – que é matéria-prima para as toalhas trançadas;

Bateria: Os 280 ritmistas estarão vestidos em uma roupa figurativa alusiva à Mestre Vitalino, retratando a realidade do povo nordestino;

Quarto setor: O Centro-Oeste será retratada pela cerâmica katiwéu, que é característica do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Outras quatro fantasias são referentes à viola de coxo (instrumento musical do Mato Grosso), cavalhada de Pirinópolis (Goiás) e folha-moeda (quando cozida, é transformada em flor pelo artesãos do Distrito Federal);

Quarto carro: É uma homenagem à tradicional cavalhada, festa característica do estado de Goiás. Para compor a alegoria, estandartes ligados à comemoração estarão decorados com a flor do cerrado e animais da natureza local, como araras e tucanos;

Quinto setor: A Região Sul será lembrada através de diversas influências deixadas pelos imigrantes. O carnavalesco abordou a lenda das bruxas de Florianópolis para confeccionar a fantasia sobre Santa Catarina. O Paraná será representado pelos ovos de páscoa decorados, trazidos pelos ucranianos. Os utensílios de montaria, fivelas e a base do chimarrão marcam a cultura do Rio Grande do Sul; além do artesanato em couro e os trajes gaúchos;

Quinto carro: A alegoria mais charmosa do enredo, segundo o carnavalesco, retrata as casas em estilo alemão com seus tradicionais relógios;

Sexto setor: Maior estado da Região Sudeste, Minas Gerais ganha boa parte do espaço no setor, predominando a religiosidade. O trabalho em cerâmica de decoração de galinhas lembra o Vale do Jequitinhonha. A fantasia sobre a colcha de retalho é uma referência à São Paulo e à Minas Gerais, com os bandeirantes atravessando o sertão. O Rio de Janeiro é citado com os doces caseiros feitos de cana-de-açúcar, no interior do estado;

Sexto carro: Alex de Souza fala do artesanato sob o aspecto religioso ao mostrar dos anjos, santos e oratórios. A alegoria é dedicada à opulência do barroco mineiro;

Sétimo setor: Os personagens bem característicos do carnaval (como o pierrô, a colombina e o arlequim) ganham fantasias em estilo futurista. Nesta parte do desfile, será relembrado o enredo campeão da escola em 1985, "Ziriguidum 2001 – Carnaval nas estrelas".

Sétimo carro: É a "Metrópolis do Samba". Tanto o futuro como o passado são referências para as escolas de samba, onde a agremiação conta a sua história.